HABILIDADES E COMPETÊNCIAS EXIGIDAS PARA O DOCENTE ATUAR NA EDUCAÇÃO

O PROFISSIONAL COM ALUNOS COM ALGUM TIPO DE DEFICIÊNCIa Loni Elisete Manica* Geraldo Caliman** Resumo O artigo revela características, habilidades e competências para o docente que na Educação Profissional tem alunos com deficiência, divididas em categorias as quais identificamos a partir dos entrevistados: paciência; crer nas potencialidades do aluno; metodologia diferenciada; qualificação profissional na área; aprendizagem mediada; avaliação diferenciada; diálogo; superação do preconceito; ousadia; humildade; prática relacionada com a cidadania; trabalho socioeducativo; e a transmissão de valores. Muitas dessas categorias são cabíveis a qualquer professor; contudo, o foco deste artigo está em evidenciar o desejo quanto ao novo jeito de ser docente na visão daqueles que fazem a prática pedagógica inclusiva no dia a dia das escolas profissionais. Foram pesquisados 48 docentes, 35 alunos com deficiência e 28 gestores, em 18 estados. Palavras-chave: Educação Profissional. Educação inclusiva. Educação especial. Docentes. Abstract The paper reveals characteristics, skills and competencies for the teacher that, in the Vocational Education, has students with disabilities, divided into categories which were identified from the interviewees: patience; to believe in the potential of the student; differentiated methodology; professional quali- *Pesquisadora na área da Pedagogia Social – linha de pesquisa: Juventude e sociedade. Doutora em Educação pela Universidade Católica de Brasília (UCB). E-mail: lonimanica@gmail.com; loni@senado.gov.br. **Professor do Programa de Graduação e Pós-graduação em Educação da UCB. Pós-doutorado e Doutorado em Educação pela Università Pontificia Salesiana de Roma. E-mail: caliman@ucb.org.br Recebido para publicação em: 16.06.014 Aprovado em: 22.08.2014
56 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. fication in the area; mediated learning; differentiated evaluation; prejudice overcoming; audacity, humility; practice related to citizenship; socio-educational work and the transmission of values. Many of these categories are applicable to any teacher, but, the focus of this paper is to highlight the desire as a new way to be a teacher in the vision of those who make the inclusive pedagogical practice in the day to day of vocational schools. For this paper, 48 teachers, 35 students with disabilities and 28 school directors were surveyed in 18 States. Keywords: Vocational Education. Inclusive education. Special education. Teachers. Resumen El artículo revela las características, habilidades y competencias para el docente que en la Educación Vocacional tiene alumnos con discapacidades, divididas en categorías que se identifican a partir de los entrevistados: paciencia; creer en las potencialidades del alumno; metodología diferenciada; cualificación profesional en el área; aprendizaje mediado; evaluación diferenciada; diálogo; superación del prejuicio; osadía; humildad; prácticas relacionadas a la ciudadanía; trabajo socioeducativo y la transmisión de valores. Muchas de estas categorías son aplicables a cualquier profesor, pero, el enfoque de este artículo está en poner en relieve el deseo relacionado con la nueva forma de ser docente en la visión de aquellos que hacen la práctica pedagógica inclusiva en el día a día de escuelas vocacionales. Fueron investigados 48 docentes, 35 alumnos con discapacidades y 28 gestores, en 18 Estados. Palabras clave: Educación Vocacional. Educación inclusiva. Educación especial. Docentes. Introdução Uma das indagações desta pesquisa prevê como trabalhar, na Educação Profissional, com o aluno com deficiência, de modo que ele possa ser estimulado não somente pelas práticas e metodologias sugeridas pelas novas tecnologias, mas principalmente, pela dimensão da sociabilidade, das relações humanas e da dimensão crítica do pensamento. Partiu-se da hipótese de que o aluno com deficiência e com algumas limitações, mas que conseguiu chegar ao Ensino Profissional, tenha potencialidades suficientes para contribuir e participar da aprendizagem de modo crítico e ativo, desenvolvendo o seu pensar e interagindo com o outro com vista à aquisição do conhecimento. Para o senso comum, educar um aluno com deficiência em um curso profissional é desafiador e instigador, especialmente pelo fato de que a sociedade, muitas vezes, já o rotula como ineficaz ou doente, considerando-o inapto à aprendizagem. Vencer essa barreira é algo que um docente comprometido com a mudança deverá propor na sua metodologia.
57 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. Algumas vezes, o docente não cria possibilidades diferenciadas para transmitir o conteúdo ou para que o aluno com deficiência avance no conhecimento. Às vezes, ele tende a esquivar-se atrás do rótulo da “doença”, uma maneira de desobrigar-se de suas responsabilidades. Assim, tanto os professores quanto a escola, nesses casos, podem se sentir eximidos do fracasso escolar desse indivíduo, pois, se ele não avançar no conhecimento cognitivo, a culpa poderá ser vista como dele mesmo ou da escola, pela falta de uma equipe multidisciplinar, das deficiências no atendimento psicológico e/ou médico-escolar. Com a retirada da responsabilidade do docente nessa relação, a escola parece sacramentar e justificar o descomprometimento com o processo de aprendizagem do aluno com deficiência. Quando isso acontece, o não aprender do aluno exime também da culpabilidade os demais fatores da aprendizagem, como o ato educativo, que inclui a relação professor-aluno, o ambiente escolar, a equipe pedagógica e, especialmente, o desejo de ensinar do professor. O artigo traz ao leitor um novo jeito de agir como docente, ou um resgate das possibilidades de fazer a prática pedagógica com um aluno com deficiência. Esse novo jeito docente é o resultado de uma pesquisa que contou com o apoio dos próprios alunos com deficiência, gestores e dos docentes da Educação Profissional. Aspectos gerais do novo jeito de ser docente para atuar, na Educação Profissional, com pessoas com deficiência Qualquer aluno, especialmente o aluno com deficiência, pode pensar e crescer no ambiente escolar. O docente deve propiciar espaços para propostas e atividades diferenciadas, em que os alunos vivam experiências multidisciplinares, raciocinem criticamente sobre os conteúdos, aprendam a solucionar problemas e, principalmente, acreditem que são agentes ativos no processo de aprendizagem. As características, habilidades e competências citadas neste artigo não se referem apenas ao professor que atua com alunos com deficiência, mas a qualquer educador comprometido com a transformação. No entanto, os formulários da pesquisa que originaram este artigo estiveram diretamente relacionados ao ato de educar alunos com deficiência. Apesar de o docente conhecer as metodologias mais eficientes e eficazes na prática pedagógica, nem sempre as utiliza, e o artigo revela o que se pode alterar ou preservar nas características, habilidades e competências do docente, as quais reverterão em prol de uma educação de maior qualidade na Educação Profissional para alunos com deficiência. O docente deve possibilitar que esses jovens reflitam sobre sua realidade, façam perguntas, busquem respostas e proponham alternativas de ação. Como afirma Neri, a respeito da educação inclusiva:
58 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. A educação inclusiva não é apenas a simples colocação de alunos em sala de aula; significa a criação de uma escola onde pessoas com e sem deficiência possam conviver e estudar em ambientes onde os indivíduos aprendam a lidar com a diversidade e com a diferença (NERI, 2003, p. 111). É fundamental para o docente que atua na Educação Profissional inclusiva possuir conhecimento sobre interação social, saber lidar com as diferenças, valorizar a diversidade e ser responsável por dar crédito às potencialidades, e não somente às dificuldades apresentadas pelo aluno. E necessário, ainda, que o docente possa entender o aluno como um ser em constante evolução e, também, um indivíduo único, compreendido e valorizado como tal e que – por meio da mediação com o outro (professor ou não), contando com meios adequados e a partir das condições oportunizadas – poderá construir seu próprio conhecimento. A vida é uma sucessão constante de mudanças que superamos com a ajuda dos demais. A mediação tem o objetivo de construir habilidades no sujeito, a fim de promover sua plena autonomia. A mediação parte de um princípio antropológico positivo e é a crença da potencialização e da perfectibilidade de todo ser humano (TÉBAR, 2011, p. 74). A mediação deve ser opção de fazer o ato pedagógico se tonar mais prazeroso. Para isso, o docente pode propiciar espaço para propostas e atividades diferenciadas, de acordo com o grau e tipo de deficiência apresentada pelo aluno. O docente poderá possibilitar que esses jovens deficientes também reflitam sobre sua realidade, façam perguntas, busquem respostas e proponham alternativas de ação. Para isso se concretizar, os docentes necessitam do apoio da escola, que precisa ser regida pelos princípios da inclusão. Os alicerces desses princípios estão registrados na Estrutura de Ação em Educação Especial, no item III, relacionado às orientações para ações em níveis regionais e internacionais. O documento foi apresentado pela Conferência Mundial em Educação Especial organizada pelo governo da Espanha em cooperação com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), realizada em Salamanca, entre 7 e 10 de junho de 1994. Seu objetivo foi informar sobre as políticas e diretrizes para a implementação da Declaração de Salamanca. Tais princípios são definidos como: [...] Escolas inclusivas devem reconhecer e responder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de qualidade a todos, por meio de um currículo apropriado, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recursos e parceria com as comunidades. Na verdade, deveria existir uma continuidade de serviços e apoio proporcional ao contínuo de necessidades especiais encontradas dentro da A vida é uma sucessão constante de mudanças que superamos com a ajuda dos demais
59 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. escola. Dentro das escolas inclusivas, crianças com necessidades educacionais especiais deveriam receber qualquer suporte extra, requerido para assegurar uma educação efetiva (ESTRUTURA, 1994). O ato de aprender do aluno envolve a sua íntima relação com as atitudes do docente. Esse docente necessita de conhecimentos sobre o que vai transmitir e compartilhar, bem como precisa ter preparo e domínio técnico e tecnológico para saber usar mecanismos de motivação que despertem o interesse por parte do aluno. Se a relação professor e aluno for ruim, esta pode trazer efeitos negativos para a aprendizagem de qualquer aluno e, especialmente, quando se trata de um aluno com deficiência que, atualmente, tem sido acolhido pela família e sociedade, mas que ainda, em muitos casos, tem esse acolhimento baseado na superproteção. Daí deduz-se a importância de que o docente esteja bem resolvido sobre o querer da sua prática pedagógica, ou seja, querer ser professor não o faz poder escolher o tipo de aluno. Esse querer docente precisa incluir também o reconhecimento de que seus alunos podem ser oriundos de famílias desestruturadas, não ter as suas necessidades básicas supridas ou ainda que poderá ser um aluno com alguma deficiência, aparente ou não. O docente precisa buscar as mudanças e valorizar o saber dos alunos que, por possuírem determinada deficiência, não são excluídos de aprender. Esse docente necessita saber planejar, valorizando o ritmo individual de seus alunos; assim, precisa ter a “necessidade de conhecer os sentimentos das outras pessoas, suas representações e ritmos individuais” (MOSQUERA; STOBÄUS, 2004, p. 207). O professor precisa compreender as novas formas de ensinar e aprender, desvelar os mistérios das trilhas do conhecimento e propor soluções criativas. Não importa se ninguém ainda usou determinada estratégia ou metodologia, poderá o docente planejar o agir do aluno, confrontando com o contexto, com a realidade e com as necessidades desse aluno. O conhecimento será apenas uma das fontes de conteúdo, a ser repassada pelo professor ao aluno. Considere-se a possibilidade de abrir espaço na sala de aula para que o aluno que domina determinado conteúdo também possa ensinar e, que nessa relação, o docente também possa aprender. Cabe ao professor observar e se perguntar: de que o aluno precisa? O passo primeiro para responder a essa pergunta é levar a inquisição ao próprio aluno com deficiência. Qualquer docente reconhece que seus alunos com deficiência acumularam conhecimento, seja como autodidata, seja na relação com o meio ou com o outro. Assim, acredita-se que o processo de aprendizagem também se realize na íntima troca da relação de conhecimento existente entre docente e discente.
60 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. Enxergar seu aluno em sua totalidade e concretude e a escola como meio de desenvolvimento é ação importante para quem desempenha a função docente. Assim como acreditar que docente e aluno são afetados um pelo outro e ambos pelo contexto em que estão inseridos, reconhecendo que a não satisfação das necessidades afetivas, cognitivas e motoras prejudica tanto professor quanto aluno, interferindo diretamente no processo de ensino e aprendizagem. A partir do afunilamento das respostas, pudemos perceber algumas categorias (características, habilidades e competências) diretamente ligadas ao jeito docente de fazer a prática pedagógica, objetivo maior da pesquisa, ratificando que muitas dessas categorias servem também a docentes que atuam com alunos sem deficiência, ampliando, assim, os horizontes da pesquisa com resultados e contribuições além das objetivadas. Características, habilidades e competências desejáveis ao docente que atua na Educação Profissional, em turmas de alunos com deficiência A seguir, serão listadas as principais categorias (características, habilidades e competências) as quais poderão fazer parte da prática pedagógica de um docente que deseja atuar na Educação Profissional com alunos com deficiência e que foram compiladas a partir do cruzamento das respostas evidenciadas pelos três segmentos de respondentes (alunos, gestores e docentes). Ressaltamos que as categorias são viáveis ao docente que atua com qualquer aluno, seja ele com ou sem deficiência; contudo, o importante é que o leitor entenda que o artigo responde a uma pesquisa e, como tal, o foco, durante o processo de coleta e análise dos dados, deu-se no jeito de atuar com alunos com deficiência na Educação Profissional. Portanto, a divulgação ocorre diretamente ao objetivo proposto. a. Ter paciência, conhecer o aluno e crer em suas potencialidades Pode-se evidenciar que a maioria dos alunos pesquisados entende a necessidade de a paciência ser incorporada ao perfil do docente. Para os docentes respondentes e para os gestores, a primeira categoria está centrada na necessidade de conhecer o aluno e crer em suas possibilidades. Dessa forma, ao fazer o cruzamento categorial da primeira categoria citada pelos respondentes, pode-se perceber como a categoria evidenciada pelo segmento dos alunos está interligada às categorias citadas pelos docentes e gestores. Caberá ao docente um jeito investigador, com interesse em dialogar com o aluno, conhecer o potencial desse aluno, bem como suas dificuldades, seus interesses e suas necessidades e, para isso, ele terá de ter muita paciência, exercitando essa paciência no dia a dia da prática pedagógica.
61 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. Em qualquer situação, deverá o docente: conhecer seu aluno com deficiência com maior proximidade do que os alunos sem deficiência; conhecer as limitações, possibilidades, bagagem de vida, trajetória escolar, vida familiar, avanços pessoais, educacionais e profissionais de seus alunos com deficiência; conhecer a situação sociocultural de seus alunos; e deve, ainda, saber fazer adequação de materiais instrucionais; conhecer amplamente as novas tecnologias assistivas que apoiam as técnicas de ensino. O professor deverá aplicar um diagnóstico inicial, chamar a família do aluno com deficiência para conversar e, principalmente, ouvir atentamente o aluno e o que tem a lhe dizer, bem como conhecer o ritmo de cada um. Após todo esse conhecimento, será mais fácil exercitar a paciência tão solicitada pelos respondentes. Caberá ao docente, além de exercitar rotineiramente a qualidade de ser paciente, focar o potencial do aluno e, a partir desse potencial, trabalhar a autoestima, proporcionando avanços na aprendizagem. Cabe ao docente saber o limite entre o que pode e deve fazer para que as possibilidades de crescimento educacional do aluno sejam geradas de forma que não estimule a superproteção, ou até mesmo tutelar esse aluno com deficiência. b. Possuir conhecimento quanto à metodologia diferenciada e ao tempo destinado à aprendizagem dos conteúdos Na Educação Profissional, um docente que deseja atuar com aluno que tem deficiência precisa buscar métodos e estratégias diferenciadas para alcançar a aprendizagem desse aluno. Essa necessidade foi citada pelos três segmentos respondentes, ou seja, no cruzamento categorial, pode-se perceber que conhecer aspectos metodológicos diferenciados daqueles que o professor possui para atuar com alunos sem deficiência é uma qualidade que deve fazer parte do novo jeito de ser do docente. Caberá ao docente buscar conhecer novas possibilidades para ministrar suas aulas, e a criatividade precisará ser um item em potencial por parte dele. O novo jeito de ser docente exige que o professor faça uso das novas metodologias, bem como deve considerar que o tempo de resposta dos alunos sobre a apreensão do conhecimento a partir dos conteúdos ministrados, às vezes, poderá ser maior para os alunos com deficiência, especialmente quando se trata de aluno com deficiência intelectual. Diante disso, precisará de um planejamento diferenciado e métodos de ensino também diferenciados. Saber aplicar a metodologia correta para cada tipo de deficiência é algo que o docente deverá buscar em sua formação. Cabe a esse docente demonstrar dedicação, atenção e acompanhamento. Adequar a metodologia para atingir o objetivo desejado e as necessidades encontradas. Precisa, ainda, adaptar a carga horária de acordo com o tipo da deficiência, bem como o grau e nível de compreensão do seu aluno.
62 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. c. Possuir qualificação profissional na área da pessoa com deficiência (PcD) e conhecer a aprendizagem mediada A busca da qualificação e atualização profissional é uma característica de qualquer docente, mas, no caso do docente que atua com alunos com deficiência, é ainda mais importante, pois a educação para as pessoas com deficiência tem sofrido transformações constantes e a necessidade de atualização se dá quase que rotineiramente. As leis que tratam das pessoas com deficiência nascem no cenário legislativo com muita frequência; são diversos os legisladores que têm se atentado para essas questões. A partir das respostas evidenciadas, será importante que o docente possa obter conhecimento sobre as diferentes maneiras de atuar pedagogicamente, segundo as necessidades dos alunos. Entretanto, seria interessante que houvesse professores especializados em Educação Especial, preparando com maior qualidade os docentes que atuam no Ensino Profissionalizante e que recebem alunos com deficiência nas salas de aulas e laboratórios técnicos. As novas tecnologias têm surgido para apoiar a vida e a qualidade da educação das pessoas com deficiência. Outro grande fator que aparece no cruzamento categorial se refere à necessidade de compreensão, por parte do docente, quanto à aprendizagem mediada. Vale ressaltar que, no cruzamento categorial, essa foi uma característica citada pelo segmento dos gestores e pelo segmento dos próprios docentes, provavelmente; não foi uma característica citada pelos alunos pela falta de conhecimento sobre o que seja aprendizagem mediada. Portanto, como é considerado relevante aos gestores e aos docentes, pode-se afirmar que seja algo fundamental no jeito de agir de um docente. Buscar conhecimentos na área da Educação Especial hoje é uma prática possível, pois existem muitas instituições formadoras que procuram desenvolver cursos para o docente em nível de Pós-graduação, ou mesmo incluem em suas ementas de cursos de Graduação disciplinas relacionadas à área. Para isso, sugere-se que o docente possa: conhecer as inovações tecnológicas e as tecnologias assistivas; participar de oficinas pedagógicas relacionadas ao tema das pessoas com deficiência como apoio para seu conhecimento na área; ter conhecimento sobre os tipos mais comuns de deficiência; e buscar formas possíveis e variáveis de compensar as atividades que o aluno não possa realizar em sala de aula ou laboratório técnico e tecnológico, metodologias e didáticas atrativas. As instituições formadoras de docentes deverão evidenciar, na grade curricular, conteúdos relacionados ao atendimento de alunos com deficiência, especialmente nos cursos de licenciatura e, quando já legalizado, nos demais cursos, sejam da área de humanas, sejam de exatas. As instituições poderiam agir da mesma forma, possibilitando disciplinas que revertam em prol de profissionais com maior qualificação na área da educação especial. As instituições formadoras poderão, ainda, investir em políticas públicas, divulgar amplamente os direitos e os deveres dos alunos com deficiência com
63 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. base na legislação existente, criar grupos de pesquisa e estudos na área, bem como laboratórios de pesquisa teórica ou de inovações tecnológicas e desenvolver oficinas práticas aos docentes e aos alunos. Deverão assumir a necessidade de qualificar os profissionais a fim de que adquiram o perfil necessário para ministrar aulas para alunos com deficiência, ou, pelo menos, adquirir o conhecimento mínimo para desenvolver a sua profissão pensando em uma sociedade inclusiva. Cabe, ainda, às instituições acreditar na resolução dos problemas e na força do processo de mediação, pois: [...] A genética não deu a última palavra. A força da mediação lança por terra todos os determinismos no campo do desenvolvimento do ser humano. Assim, devemos entender a mediação como posição humanizadora, positiva, construtiva e potencializadora no complexo mundo da relação educativa (TÉBAR, 2011, p. 74). d. conhecer a avaliação diferenciada Os pesquisados citam a avaliação diferenciada como um ponto forte na Educação Profissional de alunos com deficiência, desejada pelos três segmentos respondentes. Essa avaliação diferenciada, na visão dos pesquisados, não está diretamente ligada à avaliação propriamente dita, mas aos métodos e procedimentos diferenciados que serão utilizados, principalmente na aplicação dos instrumentos de avaliação. Para os alunos com deficiência, muitas vezes, dependendo do grau e tipo da deficiência, o docente, além dos recursos adequados, necessita ter paciência, planejar instrumentos de avaliação diferenciados, e isso só será possível se o docente incorporar o desejo de querer fazer diferente. Os recursos mais adequados e utilizados para aplicação dos instrumentos de avaliação são: Braille, softwares leitores de tela (virtual Vision, DosVox, Jaws...), gravação ou mesmo prova oral para alunos com deficiência visual. Para alunos com deficiência auditiva, o docente poderá utilizar a Língua Brasileira de Sinais (Libras), bem como o profissional intérprete ou ainda instrumentos impressos e preparados em Libras para aqueles alunos e docentes que a conhecem e dominam. Os recursos utilizados no processo de avaliação para alunos com deficiência física nem sempre exigem preparar instrumentos de avaliação diferenciados, mas, especialmente, adaptar ou adequar o espaço e lançar mão das tecnologias assistivas variadas. Vale ressaltar que a avaliação dos alunos com deficiência, em geral, deve ser igual à dos outros alunos, pois, de princípio, estes têm o “cognitivo preservado”. Para os alunos com deficiência intelectual é que deve ser feita uma avaliação diferenciada em seu conteúdo, segundo o Plano de Ensino Individualizado que o professor elaborou para esses alunos. Sempre que o docente for planejar uma avaliação de alunos com deficiência, sugere-se que se utilize, preferencialmente, de avaliações práticas, em laboratórios profissionais, e que, quando for utilizar instrumentos escritos (impressos) de avaliação, será imprescindível atentar para a acessibilidade do instrumento, de acordo com o tipo de deficiência do aluno.
64 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. Para que o aluno com deficiência tenha uma avaliação diferenciada, o perfil do docente que atua ou atuará com esse aluno poderá incluir: amplo conhecimento sobre procedimentos de avaliação; compreensão dos procedimentos diferenciados de avaliação; capacidade de respeitar as deficiências e adaptar a avaliação de acordo com a necessidade de cada tipo de deficiência; construção de instrumento de avaliação oral, realização de práticas avaliativas em laboratórios tecnológicos; conhecimento dos instrumentos de avaliação que forem realizados por meio de registros escritos; as correções dos instrumentos de avaliação também serão diferenciadas; o conhecimento da Libras (língua), que é diferente do português e, quando necessário, buscar apoio técnico. Para conhecer essa avaliação diferenciada, que deve fazer parte do seu perfil, poderá, ainda, o docente usar: registros, portfólios, provas laboratoriais ou observar e analisar as competências e habilidades do aluno. Poderá o docente sugerir à coordenação pedagógica a criação de grupos de estudo entre os docentes que atuam com alunos com e sem deficiência, para que possam refletir sobre suas práticas e trocar experiências; compreender que a avaliação é um processo dinâmico; conhecer novos métodos de aprendizagem e avaliação, bem como, sempre que for atuar com alunos com deficiência intelectual, poderá fazer uso da terminalidade específica que tem amparo legal e pode ser utilizada em qualquer curso regular. Saber avaliar e certificar pela competência é algo possível, por isso será necessário que o professor conheça as novas possibilidades que oferecem a educação e avaliação por competência, inclusive com registros por tempo determinado. Caberá ao docente saber avaliar, considerando, sobretudo, as habilidades e as competências dos alunos; isso abre novas possibilidades de avaliação que extrapolam a avaliação tradicional. e. O docente precisa dialogar com seu aluno Uma habilidade do docente que atua com aluno com deficiência é realizar o diálogo constante. Ninguém sabe mais sobre como devem ser as estratégias para aquisição de conhecimentos do que o próprio aluno. Ele se conhece e sabe suas limitações e, mesmo, seus potenciais. Para isso, o docente precisa incluir em seu perfil o manejo em dialogar com esse aluno. No cruzamento das categorias, o diálogo foi apontado como algo necessário tanto nas respostas do segmento dos alunos como nas respostas dadas pelo segmento dos gestores, e, portanto, acrescentado como categoria necessária à prática docente. Sugere-se que o professor: pergunte ao próprio aluno que sugestões ele daria para que as aulas sejam mais produtivas e como viabilizar melhores condi- Caberá ao docente saber avaliar, considerando, sobretudo, as habilidades e as competências dos alunos
65 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. ções de acesso ao conteúdo. Poderá, ainda, oferecer ao aluno a oportunidade para explanar em sala de aula as suas necessidades e, se desejar, conversar francamente com os demais colegas da sala de aula. O docente poderá fazer uso do potencial do aluno com deficiência para trabalhar habilidades inerentes ao conteúdo. Por exemplo: um aluno surdo, provavelmente, domina Libras, então poderá o professor oferecer espaço na sala de aula para que esse aluno ensine a sua língua aos demais alunos; isso fará com que ele se sinta motivado a ir às aulas e influenciar os demais alunos na sensibilização de conhecerem a Libras. f. O docente precisa superar o preconceito e a discriminação social para com a pessoa com deficiência Com a era da inclusão, a discriminação e o preconceito sofrido pelas pessoas com deficiência foram amenizados, mas, de forma alguma, superados. É comum ainda presenciarmos atos e ações para com as pessoas com deficiência, que as discriminam ou que as colocam em situações de desvantagens pelo preconceito impregnado na sociedade. No cruzamento categorial, o segmento dos alunos e dos gestores evidencia a necessidade da superação do preconceito como condição importante em um perfil docente que atua com alunos com deficiência. Não foi algo citado pelos docentes respondentes, acredita-se pelo fato de entenderem que isso já ocorre naturalmente e não se sintam como agentes que discriminam. As políticas públicas em favor da pessoa com deficiência avançaram, mas é notório que ainda precisam continuar crescendo em prol de um mundo mais igualitário e menos preconceituoso. Para que o docente supere o preconceito e possa acreditar no potencial do aluno, alguns itens são necessários ao perfil daquele que atua com alunos com deficiência. Será necessário adotar princípios que combatam a discriminação, assim como afirmam os autores a seguir: [...] a adoção de princípios que regem o empenho de enfrentar qualquer forma de desigualdade social e/ou econômica, direcionando a superação da degradação e do desrespeito, tendo como foco a promoção da dignidade, reconhecimento, justiça e solidariedade (SANTOS; SOUZA; BARBATO, 2012, p. 249). g. Ter ousadia para acreditar que pode fazer diferente No cruzamento categorial, percebe-se que os segmentos dos alunos e dos próprios docentes entendem que ousar e fazer diferente são itens que devem ser incorporados como características essenciais ao docente que atua com alunos com deficiência. Ser ousado, nesse caso, significa querer planejar diferente para o aluno com deficiência; desejar criar espaços diferentes do convencional; aplicar técnicas que, até então, não precisava ou não tinha interesse e, especialmente, fazer tudo que for necessário, mesmo que diferente da sua prática pedagógica
66 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. cotidiana, mas que apoie o crescimento e o desenvolvimento profissional do aluno com deficiência. Para que o docente possa ser ousado, sugere-se que tenha coragem para assumir desafios diferentes; que deseje aprender; que não tenha medo do novo e de considerar que não sabe lidar com as diferenças dos alunos que estão sob a sua alçada. Pode ainda ser um docente ousado na metodologia, na criatividade e na busca do aprimoramento profissional. Acreditar no diferente e na possibilidade de fazer a diferença como docente, marcando sua trajetória profissional a partir de ganhos e conquistas adquiridas na sua prática pedagógica, é desafio necessário ao docente que é ousado. Ter o dom de convencer a direção e a coordenação pedagógica, sempre que se fizer necessário, mostrando à equipe multiprofissional quais as necessidades dos alunos com deficiência que tem percebido na condição de docente desse aluno. Isso poderá requerer o diálogo permanente com seus superiores. O professor que desejar ser ousado poderá compartilhar com os demais docentes da escola sua história e a experiência que está construindo ao lado de seus alunos com deficiência. Caberá à escola possibilitar que ele seja palestrante para pais, alunos e outros docentes sobre sua prática pedagógica. Oferecer horas para ele descrever a experiência e participar como autor em artigos que possam contribuir com professores que ainda precisam revelar sua ousadia. h. Ser humilde e estar preparado para aprender com os outros Essa qualidade é importante no perfil de um docente que atua com alunos com deficiência. É comum o docente considerar-se superior ao seu aluno e, no caso do aluno com deficiência, é comum o docente tratá-lo como um ser inferior. Isso não condiz com a prática almejada pelos respondentes deste estudo. No cruzamento categorial, o segmento dos alunos e o dos próprios docentes citam a necessidade de o professor ser humilde e estar predisposto à troca de conhecimentos. Assim, sugere-se que o docente tenha a humildade de saber que poderá aprender com seu aluno, especialmente quanto a questões que desconhece, pois esses alunos dominam o conhecimento de seu próprio potencial e de suas limitações. O conhecimento de vida do aluno pode ir muito além do conhecimento acadêmico do professor. O perfil docente exige humildade e desprendimento para aprender com o outro, para isso poderá o docente: reconhecer os avanços e os resultados do seu aluno e, especialmente, ser humilde para conhecer as vantagens de atuar com um aluno com deficiência e tirar proveito delas; ter humildade para entender que, muitas vezes, vai aprender com o aluno, inclusive quanto aos aspectos didáticos, metodológicos e às estratégias de ensino para atender às suas possíveis limitações. Caberá ao docente reconhecer que um aluno com deficiência também poderá ser um aluno com altas habilidades e, consequentemente, poderá saber mais que o próprio docente, inclusive sobre o conteúdo que será transmitido. Ratifica-se assim, a necessidade de dialogar com os alunos sobre suas deficiências e aprender como poderá agir na prática docente com mais eficiência para atender às dificuldades ou limitações do aluno.
67 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. i. O docente necessita trabalhar os pré-requisitos que antecedem a Educação Profissional Este item foi algo inesperado à pesquisadora, que sempre entendeu, pelo seu conhecimento, que caberia ao docente da Educação Profissional estar apenas preocupado com o conteúdo do curso que ministraria e, assim, deveria receber seu aluno com deficiência já com o perfil desejado pelo curso. No entanto, no cruzamento categorial, os respondentes dos três segmentos entendem que, socialmente, esses alunos foram discriminados e que cabe ao docente procurar desenvolver os pré-requisitos que a escola regular não conseguiu desenvolver nos alunos com deficiência. Para isso, quando o aluno necessitar de base teórica ou prática que anteceda o curso de Educação Profissional, poderá o professor buscar formas de superar a defasagem de conhecimentos desses alunos. Os pesquisados entendem que, quando o aluno não for alfabetizado, poderá o professor lançar mão de estratégias diferenciadas, como, por exemplo, desenvolver apostilas profissionais por meio de desenhos e gravuras. Deverá trabalhar com o aluno a competência profissional, levando em consideração a sua aprendizagem de vida e o conhecimento não formal que possui. Diante do exposto, conclui-se que outro item importante para o perfil de quem atua com alunos com deficiência está na necessidade de saber os pré-requisitos necessários para o curso e, quando necessário, saber preparar e orientar os alunos com deficiência. Essa preparação se dá quando o curso exige esse nivelamento. Esclarecemos que a pesquisa que originou este artigo foi realizada com alunos e docentes dos cursos de Aprendizagem Industrial tanto na modalidade de Qualificação como na modalidade Técnica. Vale lembrar que, nem sempre, os melhores cursos para o aluno com deficiência são aqueles que não exigem prévia escolaridade. A modalidade de qualificação profissional possibilita cursos profissionais sem a prévia escolaridade formal; porém, um curso mais intenso quanto a conteúdos, como uma Aprendizagem Industrial Técnica, exigirá que esse aluno tenha uma escolaridade formal mínima para acompanhar a turma. Diante disso, no caso do aluno com deficiência analfabeto, a escola e o docente poderão fazer uso de cursos relacionados à modalidade de Qualificação Profissional. Não ousaríamos afirmar aqui que alguns cursos não são possíveis para determinados alunos com deficiência frequentar. Isso estará aliado ao tipo ou grau da deficiência que esse aluno possui, bem como aos desejos pessoais e às experiências vividas pelo aluno. Temos conhecimento de alguns cursos, por mais boa vontade do docente, seriam muito difíceis ou até mesmo impossíveis que determinado aluno frequente, mas, afirmar isso, a nosso ver, é interferir no desejo do próprio aluno e nas aptidões que, muitas vezes, o docente desconhece, mas o aluno as conhece muito bem.
68 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. Um exemplo claro seria dizer que um aluno com deficiência visual não poderia participar de um curso de pintura de automóveis ou mesmo de um curso de mecânica de autos por não enxergar. A prática nos apresenta um quadro diferente do que se apregoa no senso comum, ou seja, o que parece não ser possível para quem ensina é possível ao aluno. O docente poderá ser surpreendido com o que pensa que um aluno com deficiência pode fazer e o que realmente esse aluno faz. Por isso, o melhor é deixar, sempre que possível, o aluno escolher o curso que deseja participar, especialmente se não for um estudante com deficiência intelectual. Caberá, ainda, ao docente compreender que seu papel de cidadão deve ir além do que meramente transmitir os conhecimentos relacionados às disciplinas para as quais foi preparado. Especialmente, deverá saber que o aluno que quer estudar e que procura a escola profissional deve ser aceito; caberá à instituição escolar promover a formação em serviço com objetivo de o docente adquirir habilidades e competências para trabalhar com qualidade com o aluno com deficiência. Para isso, essa ação deve ser prevista em sua carga horária, e ele deve acertar, previamente, com a coordenação ou a direção para que o trabalho e a dedicação possam ser remunerados. j. O docente deve desenvolver uma prática intimamente relacionada à cidadania e ao trabalho socioeducativo O docente que atua com alunos com deficiência também realiza uma ação socioeducativa, especialmente quando os alunos forem oriundos de classes sociais menos favorecidas. Isso ficou evidenciado nos resultados deste estudo e se deve ao fato de o docente extrapolar os aspectos relacionados ao conteúdo predeterminado, atuando com aspectos relacionados à identidade do aluno. No cruzamento categorial, o segmento dos gestores e o dos próprios docentes entendem que o docente que atua com alunos com deficiência também é um educador social que exige mais do que a mera transmissão de conteúdos e ultrapassa apenas o objetivo de conhecimento acadêmico. Apesar de essa competência ser cabível ao docente que atua com qualquer tipo de aluno, foi algo evidenciado pelos pesquisados em relação à prática pedagógica relacionada aos alunos com deficiência, demonstrando que esse professor que atua com tipo e graus diferentes de deficiência exige ser também um educador social. Sugere-se a esse docente que: busque conhecer dinâmicas de grupo ou técnicas variadas que estimulem o trabalho cidadão; desenvolva práticas metodológicas comprometidas com a transformação social do aluno; ensine seu aluno a estar engajado na transformação de grupos que, socialmente, são atingidos pela discriminação. Isso é algo que exige que o docente ultrapasse os limites da sala de aula, como se refere no texto a seguir: O docente que atua com alunos com deficiência também realiza uma ação socioeducativa
69 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. O docente [...] ultrapassa os limites da sala de aula e enfrenta questões maiores que lhe atribuem um caráter educativo mais amplo do que de simples instrução. Abandona-se uma visão reducionista da ação docente apoiada na racionalidade técnica e dirige-se para um sentido de globalidade [...] (GRILLO, 2002, p. 78). Ministrar aulas sabendo que o papel docente vai além de ministrar conteúdos, e que sua função pode ser de um agente transformador, o qual demonstra seus princípios como cidadão, é algo inerente ao querer docente e, ao mesmo tempo, é algo que quando não se tem se deve buscar aperfeiçoar, de forma que o docente possa estimular e desenvolver esse querer. k. O docente deve transmitir valores aos alunos com deficiência Transmitir valores deve ser uma prática docente, tendo sido citada e, consequentemente, desejada pelos segmentos pesquisados, e isso deve acontecer para com todos os alunos com ou sem deficiência, percebendo a cada um e no seu conjunto. O docente deve ser capaz de transmitir alguns valores a seus alunos e, para isso, precisa estar preparado e, especialmente, viver os valores na sua prática. O exemplo é o melhor método na transmissão dos valores. Essa questão não foi formulada aos alunos respondentes e fez parte do instrumento apenas dos docentes e dos gestores. Após a análise dos resultados e o cruzamento das respostas e das categorias significativas dos dois segmentos (gestores e docentes) que responderam a essa questão relacionada aos valores, pode-se afirmar que os dez principais valores que foram citados pelos pesquisados quando perguntados sobre quais valores consideravam primordiais na prática docente com alunos com deficiência são: comprometimento, respeito, responsabilidade, conhecimento, autoestima, competência, democracia, diálogo, coragem e trabalho. Vale lembrar que, antes da transmissão desses valores, o docente necessita conhecê -los e incorporá-los ao seu perfil docente, pois ninguém defende o que não acredita. Acima, foram expostas as principais categorias que passaram por uma análise no decorrer do estudo e foram sofrendo um estreitamento conceitual até se chegar às principais categorias relacionadas ao novo jeito de fazer a prática pedagógica na Educação Profissional dos alunos com deficiência. Considerações finais Diante do exposto, a partir das respostas oriundas dos segmentos pesquisados, sugere-se que o docente deseje vencer possíveis desafios que porventura surjam na sala de aula ou laboratórios técnico-tecnológicos da Educação Profissional, por meio de uma prática que exige maior desprendimento, organização do tempo e estudos extras. Sabe-se que isso é necessário para atuar com qualquer tipo de aluno; contudo, é certo que planejar para o aluno com deficiência exige maior preparo de materiais e criação, adaptação, adequação ou invenção de tecnologias assistivas.
70 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. Considerando a perspectiva da atividade a ser desenvolvida pelos alunos com deficiência, normalmente, esses alunos exigem adaptação ou adequação de acesso, seja arquitetônico, seja em relação aos conteúdos, seja em relação aos materiais impressos. Em alguns casos, os alunos também necessitam de maior tempo para avaliação; cabe ao docente atuar a partir das dicas dos próprios alunos, interesse do grupo de professores e atenção dos gestores com respeito à formação dos professores e fornecimento de materiais de apoio para os alunos. Será possível propor uma aprendizagem ao aluno que o faça refletir e pensar sobre sua identidade, considerando o saber da bagagem dos alunos e exigindo o querer pedagógico desse docente comprometido com a diversidade. Para isso, o docente, além da sua preparação pedagógica, pode criar ambientes favoráveis que levem em consideração as diferenças de seus alunos com deficiência e as necessidades de cada um deles. Quanto ao jeito diferente de atuar na Educação Profissional com alunos com deficiência, muitos foram os itens citados na pesquisa; vale ratificar que caberá ao docente ter paciência, conhecer seu aluno e buscar estratégias para atender ao tipo de aluno que recebeu. O docente necessita conhecer novas metodologias que o apoiarão na função que terá que desempenhar na capacitação e na profissionalização das pessoas com deficiência. Não é recomendável ter alunos com diferentes deficiências em uma mesma sala de aula, especialmente quando alguns forem muito comprometidos ou possuírem uma deficiência severa; contudo, isso nem sempre é possível; nesse caso, caberá à instituição oferecer apoio ao docente e, talvez, a solução esteja em oferecer um monitor para acompanhar as ações do docente. O perfil docente aponta também para a necessidade de o docente ultrapassar a mera transmissão do conteúdo programático, buscar constante atualização pedagógica e qualificação para aperfeiçoar sua formação para atuar na profissão docente. A educação deve ser continuada. Cabe ao docente reconhecer que, a cada momento, novas orientações, tecnologias assistivas e estratégias metodológicas têm surgido para apoiar o trabalho junto às pessoas com deficiência. O docente que atua com aluno com deficiência na Educação Profissional deve buscar aprimoramento na Educação Especial e, quando necessário, trabalhar previamente os pré-requisitos fundamentais para a inserção do aluno com deficiência nos cursos de Educação Profissional. O docente pode ter inúmeros ganhos pessoais e profissionais ao realizar a sua função com alunos com ou sem deficiência; porém, o que demonstram os pesquisados, inclusive os próprios docentes, é que o ganho e a gratificação pessoal em atuar com alunos com deficiência, muitas vezes, é algo maior do que quando trabalham com alunos sem deficiência. Constata-se, ainda, pela pesquisa realizada, que a titulação docente, que é adquirida por meio das instituições formadoras, nem sempre prepara, automaticamente, para o exercício da docência para atuar com alunos que possuem deficiência. Assim, é imprescindível que o sistema promova a formação em serviço de seus professores. Os gestores devem estar atentos a isso, e o docente poderá buscar constantemente o aperfeiçoamento profissional que estará sendo oferecido pelas instituições.
71 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. Sabe-se que existirão dificuldades na trajetória daqueles docentes que desejam atuar com as pessoas com deficiência; nesse momento, o querer interior deve falar mais alto. Caberá ainda ao docente acreditar que a diferença pode estar em sua atuação e que o maior objetivo que terá, ao atuar na Educação Profissional com aluno com deficiência, será educar o diferente para um mundo profissional competitivo que exige padrão de qualidade e, em muitos momentos, exige padrão de igualdade. A escola é um espaço democrático, no qual a diversidade está presente. Acolher o aluno com deficiência e focar seu potencial é acreditar que as deficiências não significam ineficiências e que todo aluno sempre terá o que aprender e o que ensinar, independentemente de suas possíveis limitações. O estudo oferece contribuições para um mundo educacional mais igualitário, no qual o conhecimento e a preparação para o mundo do trabalho sejam um direito de todos e todas, incluindo as pessoas com deficiência. Os resultados aqui apresentados estão relacionados a uma educação que esteja preocupada com um novo jeito docente para atuar com alunos com deficiência ou com o resgate de um jeito conhecido, possível, mas nem sempre desenvolvido na prática. As categorias explicitadas revelam as possibilidades de fazer a prática docente coerente com a evolução das pessoas com deficiência, a partir da aquisição de novos conhecimentos e da capacitação para o mundo do trabalho. Não são receitas; são, sim, sugestões que poderão ser incorporadas pelo docente comprometido com a diversidade. Desejamos que os resultados aqui evidenciados ganhem espaços no mundo das relações e ofereçam continuidade a essa reflexão, aprofundando os estudos na área, pois, a cada conclusão, novos desafios surgem, gerando novas pesquisas compatíveis com a rápida evolução do mundo. Precisamos, como pesquisadores, ter a crença de que também somos colaboradores e corresponsáveis pelas transformações sociais e educacionais que respondem por um mundo mais justo e igualitário e melhor de ser vivido. O docente precisa manter o diálogo franco e aberto com a comunidade escolar, principalmente com o aluno, para que juntos busquem alternativas metodológicas para uma Educação Profissional de qualidade, que reverta em prol do mercado de trabalho, pois ninguém melhor do que o próprio aluno com deficiência para saber e sugerir o jeito certo de ser docente.
72 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. Notas 1 Cruzamento categorial: É a compilação das categorias que foram obtidas a partir da ideia preponderante que apareceu nas respostas por segmento pesquisado (aluno, docente e gestor) para cada uma das perguntas do formulário de pesquisa. Como exemplo, citemos, aqui, a análise de uma questão do formulário de pesquisa, que poderá ser a primeira, a qual foi analisada da seguinte forma: quanto ao segmento aluno, analisaram-se 35 respostas e extraiu-se a ideia preponderante; o mesmo foi feito com os 28 gestores, que geraram a segunda coluna e, ainda, o mesmo foi realizado com os 48 docentes, que geraram a terceira coluna. A partir dessas categorias expostas nas colunas dos segmentos, fez-se o cruzamento categorial, que reflete aquilo que foi mais evidenciado por todos os pesquisados em relação a cada questão do formulário de pesquisa. 2 Tecnologias assistivas – é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (BRASIL, 2014). 3 De acordo com Feuerstein, para se produzir uma aprendizagem significativa, torna-se imprescindível a dupla mediador-mediado, a qual, ao desenvolver os critérios de mediação, possibilite a interação e a modificação, já que é somente por meio da interação do sujeito com outros sujeitos capazes de mediar informações necessárias, estando esses sujeitos integrados a um meio ambiente favorável e estimulante, que o desenvolvimento cognitivo se realiza. Dessa forma, a interação é influenciada por determinadas características do organismo, incluindo aquelas de hereditariedade, maturação e similares, e qualidades do meio ambiente, como oportunidades de educação, status socioeconômico, experiência cultural, contatos afetivos e emocionais com outros significantes (TURRA, 2007, p. 300). A aprendizagem mediada é o caminho pelo qual os estímulos são transformados pelo mediador, guiado por suas intuições, emoções e sua cultura. O mediador avalia as estratégias, seleciona as que são mais apropriadas a determinada situação, amplia algumas, ignora outras, faz esquemas. É por meio desse processo de mediação que a estrutura cognitiva da criança adquire padrões de comportamento que determinarão sua capacidade de ser modificada. Assim, quanto menos mediação for oferecida, menor será a possibilidade de o mediado desenvolver a capacidade de se modificar. A Experiência de Aprendizagem Mediada requer a presença de três parâmetros, os quais Feuerstein denomina critérios de mediação, que são o objeto de atenção deliberada por parte do mediador: Intencionalidade/Reciprocidade, Significado e Transcendência (TURRA, 2007, p. 303).
73 B. Téc. Senac, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, p. 54-73, maio/ago. 2014. Referências ALUNOS com deficiência intelectual cumprem a mesma carga horária que os colegas na escola regular. Nova escola, Rio de Janeiro, n. 244, ago. 2011. Disponível em: . Acesso em: 27 set. 2013. BRASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Subsecretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Tecnologia Assistiva. Brasília, DF: CORDE, 2009. Disponível em: . Acesso em: 9 ago. 2014. CALIMAN, G.; PIERONI, V.; FERMINO, A. Pedagogia da alteridade: para viajar a Cosmópolis. Brasília: Liber, 2014. CONFERÊNCIA MUNDIAL DE EDUCAÇÃO ESPECIAL, 1994, Salamanca. Declaração de Salamanca: sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais. Disponível em: . Acesso em: 28 jun. 2013. ESTRUTURA de ação em educação especial. In: CONFERÊNCIA MUNDIAL DE EDUCAÇÃO ESPECIAL, 1994, Salamanca. Declaração de Salamanca: sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas e especiais. Disponível em:. Acesso em: 25 ago. 2014. GRILLO, Marlene. O professor e a docência: o encontro com o aluno. In: ENRICONE, Délcia (Org.). et al. Ser professor. 3. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. p. 73-89. MOSQUERA, Juan José Mouriño; STOBÄUS, Claus Dieter. Professor personalidade saudável e relações interpessoais: por uma educação da afetividade na educação especial. In: MOSQUERA, Juan José Mouriño; STOBÄUS, Clausdieter. Educação especial: em direção à educação inclusiva. 2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. NERI, Marcelo et al. Retratos da deficiência no Brasil. Rio de Janeiro: FGV/Ibre/ CPS, 2003. SANTOS, Boaventura de Souza. Em busca da cidadania global. Entrevistador: Immaculada Lopez. Entrevista concedida à Revista Sem Fronteiras. 2001. Disponível em: . Acesso em: 16 jan. 2013. SANTOS, Paulo França; SOUZA, Maria de Amparo de; BARBATO, Silviane Bonaccorsi. A inclusão escolar e social de sujeitos com deficiência motora na fala de jovens adultos. In: BRANCO, Ângela Maria Cristina Uchoa Abreu; OLIVEIRA, Maria Claudia (Org.). Diversidade e cultura da paz na escola: contribuições da perspectiva sociocultural. Porto Alegre: Mediação, 2012. p. 241-264. TÉBAR, Lorenzo. O perfil do professor mediador: pedagogia da mediação. Tradução de Priscila Pereira Mota. São Paulo: Senac São Paulo, 2011. TURRA, Neide Catarina. Reuven Fuerstein: experiência de aprendizagem mediada: um salto para a modificabilidade cognitiva estrutural. Educere et Educare: revista de educação, São Paulo, v. 2, n. 4, p. 297-310, jul./dez. 2007.