Preparação de pessoas com deficiência para concursos públicos

Publicado em: 05.fevereiro.2014

Por: Frederico Rios

Fala-se pouco nas redes sociais e na mídia de um modo geral sobre a
preparação para concursos públicos dos candidatos com deficiência,
vulgarmente denominados como candidatos PNE#s (portadores de
necessidades especiais). Vale deixar, como cartão de visitas, minha
crítica a esta infeliz nomenclatura oficializada pelo Decreto 3298/99.
Ora, eu sou tetraplégico e não carrego minha deficiência física na
carteira como se fosse um documento! (Eu não tenho opção de portar ou
não minhas limitações!). Mas, tratando da rotina de estudos de um
candidato com deficiência, dependendo da sua limitação # seja física,
auditiva, visual ou intelectual # é bem possível bater de frente com
alguns obstáculos que, se não forem previamente observados, podem
interferir de maneira bastante negativa no resultado almejado pelo
candidato.

[concurso publico]

Imagem: Essas e Outras

Não quero fazer drama nem sensacionalismo, mas imagine como é ter que
deixar de fazer um bom curso preparatório porque o estabelecimento não
oferece o mínimo de acessibilidade (rampas de acesso, elevadores,
banheiro adaptado, mesa para cadeirante, sala de estudo com espaço
adequado, etc.) para receber um candidato numa cadeira de rodas? Poucas
instituições no ramo pensam nisso. A situação é muito complicada. Até
mesmo para um autodidata com disciplina de estudo é preciso muita
estratégia e dinamismo para não deixar que as limitações atrapalhem. Por
exemplo, quando a pessoa com deficiência é parcialmente independente
(minha situação), ela pode até ter garra e a disciplina necessária, mas
vai ter que adequar seu programa de estudo à rotina dos terceiros que a
acompanham. Não dá para virar uma noite estudando e preocupado caso
precise de alguém para te ajudar sair de uma cadeira no meio da
madrugada, ou nem sempre será possível encontrar bons materiais em
áudio, Libras ou braille. Isso tudo sem falar nas dificuldades de
locomoção dos que dependem de transporte público para chegar numa sala
de cursinho.

Embora qualquer pessoa, independentemente de deficiência, tenha lá suas
dificuldades para preparação (sejam de ordem familiar, financeiras,
psicológicas e outras), é certo que quando há uma limitação física, a
situação pode se tornar ainda mais difícil se não for realizada uma
análise prévia de possibilidades para se dar a volta por cima. É isso
mesmo! O candidato que tem alguma deficiência capaz de interferir na sua
preparação, ao elaborar seu planejamento de estudos, tem que levar todos
esses fatores em consideração para tentar fazer do limão uma boa
limonada! O ideal é buscar recursos como cursos online e softwares que
facilitem a tradução, leitura e conversão de arquivos para a linguagem
mais adequada, além de entrar em acordo com familiares ou cuidadores
sobre a necessidade de um ambiente adequado de estudos e sobre os
horários de procedimentos (banho, cuidados cirúrgicos, cateterismo
vesical, fisioterapia…), os quais, de acordo com cada pessoa, tomam
boa parte do dia. Tudo isso é importante para otimizar sua grade de
horários e conseguir ter o máximo de horas livres possível para estudar
e, a partir daí, encarar frente a frente, com disciplina, um programa de
estudos em busca da realização de ingressar em uma carreira pública.

O mercado de trabalho na esfera privada ainda é muito cruel com as
pessoas com deficiência, independentemente da sua qualificação
profissional. A “regra prática† na atividade privada é que a pessoa
com deficiência só pode ocupar vagas decorrentes da “cota† legal
obrigatória. Sem dúvida nenhuma, afirmo aos colegas com deficiência, em
sentido amplo, que encontram diversas barreiras para estudar, que hoje o
serviço público ainda é a nossa melhor opção. É uma conquista que
demanda dedicação, disciplina, esforço fora do comum e muita
perseverança, mas é possível materializar a superação e garantir a
qualidade de vida quando deixamos de olhar para os obstáculos e
enxergamos apenas o nosso foco.

[Thiago Helton] Thiago Helton é Oficial de Apoio Judicial do Tribunal de
Justiça de Minas Gerais, concurseiro e acadêmico de Direito da
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. É membro da comissão
de acessibilidade da PUC Minas, unidade Barreiro em Belo Horizonte/MG.
Tetraplégico desde 2008, vítima de acidente de trânsito (atropelamento).

Twitter: @thiagohelton10