Será que ainda falta informação sobre Braille?

Por Luciane Molina*

Minha experiência como usuária de Braille está prestes a completar duas
décadas. Dos contornos grossos e embaçados que se desfocaram
progressivamente, com apenas 13 anos de idade eu não conseguia calcular
direito o impacto do Sistema Braille para que pessoas cegas tivessem
soltas as amarras da prisão intelectual. Sabia, porém, que aqueles
desenhos em relevo me acompanhariam pra sempre, num misto de liberdade e
gratidão por conseguir ler o que antes só era possível graças 3 vozes e
olhos emprestados de alguém.

Volto a falar de Braille nessa coluna, porque ainda hoje sua obscuridade
ofusca algumas ações em prol da inclusão e acessibilidade das pessoas
com deficiência visual. O desconhecimento de que a leitura tà ¡til exista
já não é mais justificativa para o isolamento cultural de uma minoria,
ainda invisível aos olhos da sociedade.

Durante esses 14 anos em que estive a frente na defesa por uma educação
inclusiva, muitas cenas foram protagonizadas na tentativa de colocar um
ponto final nas atitudes de preconceito e discriminaçà£o por parte de
diretores e professores desesperados ao se depararem com â€`“vida† por
trás da cegueira. Algumas vezes na base da conversa, outras por força da
lei, aluno cego que passasse por mim teria sua vaga garantida dentro da
escola regular.

O receio que impregnava a ação pedagógica tinha força. Quanto mais os
professores alegavam desconhecer o Braille, maiores eram os esforços e
batalhas travadas por mim para oferecer formação continuada em Grafia
Braille para profissionais e familiares de pessoas cegas ou com baixa
visão. De certa forma, alegro-me porque o conhecimento do Braille hoje
já  ultrapassou os muros das escolas e ganhou espaço em placas de
sinalização nas agências bancárias, em caixas de medicamentos e
cosméticos, em alguns poucos rótulos de produtos, em poucos cardápios e
nos botões dos elevadores.

Materiais didáticos em Braille ainda são insuficientes, assim como essas
poucas ações isoladas não dão conta da demanda dos cegos consumidores de
produtos e de serviços. Entretanto, fiquei desconcertada por duas vezes
somente nesta semana. A primeira delas foi quando encontrei botões de
elevadores com um Braille â€Sfalsificado†. A segunda, por causa de um
vídeo no Youtube que promete ensinar Braille em apenas dez minutos.

No elevador de um shopping, com pelo menos 9 anos de funcionamento, os
botões possuem Braille, mas sem qualquer relevo. Trata-se de uma pintura
que imita o desenho dos pontos que formam a escrita dos cegos. Se essa
ação, na tentativa de ludibriar as pessoas cegas não foi fiscalizada,
existe algo errado por trás. Ou, na pior das hipóteses, o
desconhecimento e a â€Signorância† prova que as pessoas com
deficiência visual sequer são consultadas para decidirem o que melhor se
enquadra dentro daquela realidade. Uma grande brincadeira de mau gosto
que deixa a pessoa cega exposta ao ridículo e a falta de acessibilidade.

Sobre o vídeo no Youtube, intitulado â€SAprenda Braille Facilmente em
Dez Minutos† é tão prejudicial quanto a â€Signorância† instalada na
situação acima. Além do vídeo ser formado apenas por imagens (sem som),
excluindo a própria pessoa cega, é impossível ensinar as técnicas de
leitura e de escrita em Braille mediante o princípio da percepção
à¡ptica ou da transcrição de materiais, em apenas dez minutos. O que se
consegue, no máximo, é apresentar a estrutura do código Braille, que
está longe de representar um aprendizado consistente e coerente. ainda
hoje encontro professores com anos de â€Scasa† e que sequer
compreendem o que representa o simbolismo para o ensino do Braille, nem
mesmo a relação entre a estrutura em relevo e a semiótica.

Diante disso, não é de se espantar que em pleno ano de 2015 diretores
ainda recusem a matrícula de pessoas com deficiência visual nos
estabelecimentos de ensino, sejam eles privados, franqueados ou
públicos. São esses estereótipos reforà§ados pela falta de informação ou
pela informação equivocada que fazem da cegueira, ora  um objeto
exótico, ora um bicho-papão. Já passou da hora da sociedade abrir os
olhos para a prática da inclusão de verdade, sem melindres, sem
falsidade. E se falta informação sobre Braille, vou arregaçar as mangas
e continuar a caminhada com força e determinação.

* Luciane Molina é pessoa com deficiência visual. Pedagoga e atua com
formação de professores no Vale do Paraíba e Litoral Norte de SP.
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http://www.guiainclusivo.com.br/2015/02/sera-ainda-falta-informacao-sobr...